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18 de outubro de 2007

Apontamentos de semiótica

1) Definição de signo
Conceito fundamental da semiótica, cujo significado é “algo que está por algo” … para alguém” – aliquid stat pro aliquo
É algo que a partir de si, faz vir outra coisa ao pensamento.

2) Contributos de Saussure e de Peirce (concepções diádica e triádica do signo – referente ou objecto é parte integrante da relação signica)


Concepção triádica




Saussure : (concepção dual – abstrai da referência)

Conceito Significado
Imagem acústica Significante

Características
- arbitrariedade
- linearidade do significante
- mutabilidade/imutabilidade


3) Tipos mais importantes de signos (sinal, sintoma, índice, ícone, símbolo e nome)

lSinal – signos que desencadeiam mecânica ou convencionalmente uma acção por parte do receptorex: sinal de partida, “fazer sinal para andar”
lSintoma – signo compulsivo, não arbitrário, em que o significante está associado ao significado por um laço natural.ex: febre – sintoma de doença; geada nocturna – sintoma de frio
lÍcone – signo em que existe uma semelhança topológica entre o significante e significadoex; Uma pintura, uma fotografia são ícones na medida em que possuem uma semelhança com o objecto pintado ou fotografado.
Subtipos de ícones são as imagens, os diagramas e as metáforas. Os diagramas, como a planta de uma casa, têm uma correspondência topológica com o seu objecto.
As metáforas têm uma semelhança estrutural, de modo que é possível fazer uma transposição de propriedades do significante para o significado.

lÍndice – signo em que o significante é próximo ao significadoex: “aqui”, “esse aí” , número das fardas dos soldados; relógio – índice de tempo
lSímbolo – caracteriza-se pela sua arbitariedade. Há uma relação convencional entre representante e representado.ex: emblemas, insígnias, estigmas, aliança, bandeira de um país, etc.
lNome – signo convencional que designa uma classe extensional de objectos.


4) Princípios taxonómicos (classificação de Umberto Eco)Os signos diferenciam-se pela:
1. Fonte – Origem
2. Inferências permitidas – signis naturais/artificiais
3. Grau de Especificidade sígnica – palavras/função signo
4. Grau de emissão e consciência de um emissor – signos comunicativos/expressivos
5. Canal físico e aparelho receptor humano
6. Relação com o significado – signos unívocos/plurívocos/equívocos/vagos
7. Replicabilidade do significante – intrínsecos/extrínsecos
8. Tipo de relação pressuposta com o referente – ícones/índices/símbolos
9. Comportamento que estipulam no destinatário – identificadores/designadores/apreciadores/prescritores/formadores
10. Funções da linguagem – referencial/emotiva/fática/injuntiva/metalinguistica/estética


5) Charles Morris e o processo semiósico (em que consiste)
Divisão da semiose (algo funciona como um signo – alguém se dá conta de uma coisa mediante uma outra) em sintaxe, semântica e pragmática: decorre da analise do processo semiósico.


6) Propriedades sintácticas do signo (em que consiste a sintáctica; signo simples/signo complexo; relações sintagmáticas/relações paradigmáticas...)
Sintáctica – organização dos signos
Propriedades sintácticas dos signos apenas se referem ao próprio signo (veículo signico ou significante)
Os signos associam-se para formar outros signos dos quais se tornam elementos.um signo simples do ponto de vista sintáctico pode ser um signo complexo do ponto de vista semântico. Ex: universidade, morada…

Teoria dos elementos – estudar as unidades mínimas, a natureza dos signos, e a sua identidade.

Conceito de entidade (opõe-se) nada/o não ser -> a natureza do signo
Conceito de unidade (opõe-se) pluralidade -> como demarcar as unidades mínimas da língua
Conceito de identidade (opõe-se) alteridade/mesmidade -> saber a causa da mesmidade do signo através das diferentes aplicações

Valor do signo – relações que esse mesmo signo estabelece no interior do sistema.

Relações sintagmáticas
- Tipo horizontal (linearidade)
- Extensão – sintagmas
- In praesentia (contiguidade)
- De dois tipos: das partes entre si e das partes com o todo

Relações paradigmáticas
- Tipo vertical
- Associativas
- In absentia (série mnemónica virtual)
- Tipos múltiplos (de ordem fónica, sintáctica ou semântica)
- Duas características: ordem indeterminada; nº indefinido


7) Propriedades semânticas (em que consiste a semântica; sentido primeiro/sentido segundo; conotação...)

Semânticas – estudo das questões relativas ao significado

Denotação – sentido 1ºConotação – sentido 2º

8) Propriedades pragmáticas do signo (em que consiste a pragmática; Austin e os actos de fala - "fazer falando"; regras dos actos de fala; dupla estrutura da fala...)


Contexto:
Con-texto (das unidades mais vastas)
Contexto existencial
Contexto situacional
Contexto de acção
Contexto psicológico


Pragmática – ciência que estuda o sentido do uso dos signos;
relação dos signos com os seus interpretes, signos e seu contexto.

Teoria dos actos de fala – signos linguísticos como acções de determinada força com aplicações diversas;
Estudo das condiçoes gerais do enunciado
Actos de fala – são acções intencionais

Constantivos – afirmações que apuram, verificam, constatam algo
Performativos – não descrevem, não relatam, não constatam nada, não são verdadeiros nem falsos, eles fazem algo ou então são parte de uma acção.

Regras para o sucesso dos performativos (Austin):
existência de uma convenção aceite pela comunidade
Falhaas pessoas e as circunstancias tem de ser apropriadas à realização de acção
acção tem de ser correctamente levada a cabo pelos participantes
acção tem de ser cumprida completamente
Abuso 5/6sinceridade: tem de haver intenção futura de cumprir o acto de fala
comportamento futuro tem de estar de acordo com o acto de fala


Incumprimento de uma das 6 regras: Infelicidade
Incumprimento das 4 primeiras regras: Falha
Incumprimento das ultimas 2 regras: Abuso

Enunciado = frase + contexto pragmático
Enunciado tem de ser:
v verdadeiro
v sincero
v correcto

Forma padrão de um acto de fala: parte ilocucional e parte proposicional

Ex: “peço-te que feches a porta” “Fecha a porta!”
Parte Ilocucional – pedir ou ordenar
Parte Proposicional – fechar a porta

2 niveis de comunicação

2 niveis de compreensão

Compreensão ilocucional compreensão predicativa
(compreendemos o acto ilocucional/ (compreende-se o conteúdo
relação interpessoal) Proposicional do enunciado)
Nível intersubjectivo do enunciado Nível das experiências

9) Economia do signo
Dado que não há fala sem língua, nem mensagens sem código, isto é, que não há signos sem códigos, o princípio da economia é um princípio geral dos signos.
Os códigos são sistemas económicos de significação e que qualquer utilização mais contínua dos signos requer sempre novas codificações.
Economia e eficácia são propriedades de relação, pelo que atribui-las aos signos começa por ser dentro do código em que os signos se situam. Não é possível decidir da economia e eficácia de qualquer signo a não ser à luz de um código.
10) Roland Barthes: o terceiro sentido



18 de março de 2007

The Godfather – visão semiótica do filme II


O filme de 1972, O Padrinho, realizado por Francis Ford Coppola é uma obra recheada de simbolismos, rituais e hábitos.
O livro no qual é baseado o filme é um romance de ficção escrito por Mario Puzo, sobre uma família de mafiosos de origem siciliana.
Todo o enredo do filme gira em volta de actos e das suas consequências. É neste círculo que se encontra em certos actos simbólicos uma semiose ilimitada.
Contudo, neste filme, não interessa analisar o que vemos mas sim aquilo que não está directamente explícito. Assim como as próprias personagens fizeram para descobrirem os vários traidores e as várias conspirações.
Ao analisar um filme com tamanha duração e tão recheado de simbolismos é-me difícil falar e/ou abordar casos específicos da película. No entanto, existem alguns momentos na história que obrigatoriamente terão de ser mencionados, como é o caso da morte de Don Vito Corleone. E porquê abordar esta morte e não outra? Don Corleone era um homem de tradições mas de palavra e com moral. Era sobretudo um homem que gostava de manter as origens, e simbolicamente acaba por morrer no seu país de origem: a Itália. Isto é, acaba por cair numa plantação de tomates, que nos remete para uma cultura mediterrânea e para a própria Itália. Outro ponto interessante nesta morte é o facto de naquela plantação ter ficado um velho “Padrinho” e ter saído de lá a correr uma nova geração.
Em todo o filme encontramos sinais que nos remetem para alterações temporais não demarcadas pela escrita. Reparo no passar do tempo quando de uma cena para a outra o bebé já aparece maior, ou quando o “Padrinho” passa de uma situação de “quase-morte” num hospital para o repouso em casa junto à família. Tudo isto são sinais de alteração temporal. Estamos, portanto, perante uma semiose.
A própria música que acompanha as várias cenas torna-se um elemento de extrema importância para que percebamos o filme e para que entremos na própria acção sem darmos por isso. A música seleccionada para a banda sonora remete-nos toda ela para um tempo e para um espaço específico. Um caso de extrema importância em termos de sonoridade encontra-se no primórdio da história, mais precisamente na festa do casamento. O tipo de música é um marco da cultura europeia, e à medida que a ouvimos distinguimos mais facilmente as origens italianas da mesma.
Contudo, aspectos como o guarda-roupa são em todos os filmes, ou pelo menos deveriam ser, factores de ligação entre a história e o espectador.
No caso particular de “The Godfather” não são estes pormenores que dão o interesse ao filme mas sim as ligações dos actos das personagens com as consequências que daí provêm.
O ritual de “quase adoração” que a família mantêm com “o Padrinho” vai-se mantendo de geração em geração.
Podemos construir um quadro semiótico em volta da raiz desta história: Ou “o padrinho” entra no esquema da droga (s1) e mantêm-se vivo (~s2), ou é morto (~s1) o que implica que não tenha entrado (s2).
Não existe uma inovação apenas uma série de rituais contínuos. Rituais estes muitas vezes assentes na palavra. Quando é preciso um favor do Padrinho é preciso saber como abordar a questão e o próprio Dom Corleone.



Sofia Simões

15 de março de 2007

O Padrinho - tentativa de analise


Analise ao filme “O Padrinho”

O filme em questão encontra-se extremamente bem estruturado e dividido, mostrando uma extensa rede de hábitos, costumes e rituais. Muitos destes partindo do poder da palavra. Qualquer pedido feito ao Padrinho tinha de obedecer a um ritual linguístico.caso não existisse tal ritual o pedido não seria aceite.
A parte pragmática e sintagmática do filme mistura-se de tal forma que o espectador deixa de perceber o que é real do que não é, do que está explícito na história do que está camuflado. Apercebemo-nos de imediato da quantidade enorme de sinais que demarcam o grupo mafioso italiano de outros personagens não italianos ou não mafiosos. A caracterização do “padrinho” ronda o limiar da perfeição. A voz, o vestuário e a maneira de ser agem em conformidade com o padrão a que nós relacionamos com os chefes da máfia italiana.
A obra é carregada de simbolismos, começando nos costumes dos membros da família, passando pelo respeito que estes têm pelo chefe, aos actos e atitudes, tudo nos remete para um plano mais distante, para um segundo plano para novos significados.
O filme é uma constante de quadros semióticos. Todas as acções (de vingança ou outras) que as personagens realizam têm consequências para elas próprias e para terceiros. Contrapondo-se pela possibilidade de não terem realizado essas mesmas acções.
A música assim como o guarda-roupa, são tudo pontos a favor desta película. Todos estes símbolos estão de acordo com o plano geo-temporal pretendido. Estes elementos são fundamentais na ligação da história com o espectador. Se um destes dados não correspondesse com a ideia preconcebida que o observador do filme tem sobre o tema desenvolvido vai existir uma quebra de confiança e um desinteresse por parte deste na história.
A cena que demonstra grande parte dos aspectos fundamentais do filme sem duvida que é a do casamento. É aqui que nos apercebemos da cultura das personagens dos seus rituais, diferenciamos os italianos dos nativos (Kay), reparamos numa americanização de Michael que tenta fugir as teias e rituais da família, etc. Contudo, mais tarde vemos que devido à tentativa de assassinato de seu pai este personagem acaba por trazer ao de cima a verdadeira chama da família.
A linguagem usada, assim como os dois idiomas explorados vieram dar uma maior consistência ao enredo. Seria anormal um italiano falar na perfeição o inglês (AmE).
Nesta obra cinematográfica conseguimos, com alguma atenção, começar a desvendar as consequências dos actos das personagens muito antes destes terem lugar. Pois, sabemos que não haverá espaço para atitudes novas, apenas a repetição de actos já anteriormente realizados.
As passagens de tempo que são inserida no filme estão disfarçadas e apenas se podem encontra través de pequenos sinais como por exemplo o crescimento do bebé, do deslocamento de Dom Corleone do hospital para casa, muito adoentado, para uma situação em que já se encontra em período de convalescença, etc.
Neste filme as próprias personagens utilizam a percepção de símbolos para pararem conspiradores e conspirações.
Em termos de simbolismo, a morte de Don Vito Corleone talvez seja uma das cenas mais repletas de significado. O facto de este ter sucumbido numa plantação de tomates, remete-nos para o mediterrâneo, nomeadamente para a Itália. Don Corleone é como se tivesse falecido no seu próprio país. No seguimento da “queda” do Padrinho vemos o seu neto (o Futuro) a nascer, a largar o passado e a correr para um rumo ainda desconhecido. Temos assim, o nascer de uma nova geração que, de qualquer forma, vai assentar a estrutura nos rituais familiares. Não existe inovação, apenas a repetição constante dos rituais.

João Pereira